quinta-feira, 22 de julho de 2010

Je T'aime Mon Amour

Falando ainda de amor - sucesso de dez entre dez corações quebrados, partidos ou desesperançados -, me propus a questionar o que as pessoas pensam, falam e sonham quando falam sobre esse assunto. Tenho escutado constantemente certas queixas que não avançam em direção a uma solução, quanto a procura incessante por amar e ser amado, nesses nossos loucos tempos. As pessoas tem tratado a questão do amor sob a ótica de um conceito filosófico para se viver bem, ou desvendar o mundo íntimo e oculto de homens e mulheres (o que esses corações escondem e não contam?), a fim de se extrair uma verdade a partir disso... Muita tolice, em minha opinião. Me parece que o amor que as pessoas procuram não existe mais nesse mundo moderno em que vivemos. Está eternizado em livros ou em filmes que reciclam obras famosas que versam sobre o amor. Mas, faz parte do passado. Existe amor, sim! Mas, qual? Averiguemos...

Tem mulheres que os homens lhe amam a beleza, e a querem tomar para dela se aproveitar, a fim de obter somente uma satisfação sexual. E as mulheres gostam exatamente daquilo que os homens gostam nela. Tem homens que as mulheres lhe amam pelo poder que lhes foi investido através de seus cobiçados cargos de empresa ou de um grupo social, e que fazem questão de exaltar-se por intermédio de inúmeros imóveis luxuosos e de carros e iates de seis ou sete cifras. E os homens gostam exatamente daquilo que as mulheres gostam nele. Amam em si o que os outros amam nele. E quando o outro não ama mais o que ele próprio amava nele? O que resta desse(a) pobre coitado(a)? O que sobrou de si para ser amado por alguém? Nada. Tudo o que pensou ser... não passou de uma mentira inventada.

O amor não é invasivo, como algo do tipo, "eu te dou o que você gosta e você me dá aquilo que gosto". Não é um tipo de escambo. Nem pode ser, por que a mercadoria a ser trocada é uma ilusão. Você passa a vida pensando querer uma coisa e quando a têm vê que nem mesmo dela precisa. Talvez, até nem goste! Descobre que ela (coisa/pessoa/vontade) não é tão boa quanto você pensava ser. E se pega perguntando: "que gosto terá todas aquelas coisas que não provei porque pareciam ruins?". Se dá conta de que nem ao menos sabe do que realmente gosta. Esteve toda a vida vendada para as milhares de oportunidades de experimentar outras coisas e descobrir o que encantava, de verdade, você mas, estava concentrada demais nas idéias de que precisava de uma pessoa assim, uma pessoa assado...

Será que é preciso saber quem você é mesmo, para assim poder encontrar o amor? Penso que não. De fato, penso o contrário. Onde você não é - mas, está! -, é que reside o amor que vale à pena encontrar. Ou o amor te encontra (questão filosófica), como queira... Tudo que você faz sem saber o propósito: pode vir a se tornar um amor. Existem coisas tolas, ou mesmo das quais você próprio se envergonha, que são especiais para alguém... e você nem sabe! E são essas pequenas coisas, que não acontecem o tempo todo - só para quem passa certos momentos da vida ao seu lado -, que realmente traduzem o sentido que essa palavra escapa dizer. Esse é o que eu chamo de "verdadeiro amor". É o amor da companhia, o amor do encontro. É o amor onde você precisa estar presente para ver acontecer pelo outro (e não, no outro), para num só depois te afetar. Aquela banalidade tão frívola e tão inesperada, te captura. Ela nem foi para você. Nem foi para ninguém! Se quer mesmo saber... Mas, tocou você de um modo seu, único, particular. É isso o que eu chamo de amor. São esses raros momentos em que você - ou alguém - revela o que não era para ser admirado, o que não era para ser visto ou mesmo contado, mas que aconteceu mesmo assim. Não podendo mais ser esquecido.

Esse amor é de alguém de que não faz trocas. Experimenta. Em verdade, se arrisca! É um amor que não faz relação. Ele não analisa. Portanto, saber que gosta de uma coisa não exclui gostar de outra. Ele só sabe que gosta, pois foi afetado pelo imprevisto. Não estava preparado: só gostou. Não tinha um plano principal para adaptar os acontecimentos nele. Ele apenas sabe que gosta. Ponto! Está receptivo ao mundo em volta e, assim, pode encontrar o que e quem amar. Não precisa procurar pois, não há nada lhe faltando para ser completado. O que lhe falta é apenas para marcar um espaço de invenção, um vazio que vai buscar novas experiências. Assim sendo, sem modelo para orientar-lhe, não está refém de ter que gostar disso ou daquilo... Gosta no dia e não mais no outro, muda de opinião, pode transitar.

Isso acontece mesmo, sem saber. É um amor que se renova. Ele não insiste em algo que pensa querer. Apóia o inesperado pois, para existir algo para amar, é preciso faltar. É como um menino arteiro que atira uma pedra no lago. Essa pedra que toca a água e levanta voo para, depois, tocar a água de novo: é o verdadeiro amor. São como duas pessoas que ora só amam a si, ora amam algo no outro, ora a si, ora no outro. Acontecendo isso repetidas vezes durante a vida. E enquanto falta, se inventa. Mas se inventa o que amar, e não a quem amar! O surpreendente ato de amar se encontra no fato de amar uma coisa que mais ninguém sente precisar amar além de você. O amor que todos querem, vendidos em sonhos pela tv, ou em balcões de compra, esse não pode ser chamado de amor, senão tomado por uma outra coisa. Seu verdadeiro nome: puro delírio.

sábado, 12 de junho de 2010

Eu não reclamo!

"Eu não reclamo, mesmo se meu coração está quebrado.
Perdido para sempre!
Eu não reclamo.
Embora você brilhe com glória de diamantes,
Nenhum brilho cai sobre a noite de seu coração.
Eu sabia há muito - eu a vi em meus sonhos -
e vi a noite nos confins de seu coração,
E vi a víbora que pica o seu seio.
Eu vi, meu amor, o quanto ordinária você é."


Para aqueles que ainda, intensamente, sofrem por amor.


Nota: uma (Amor do Presente) das três partes do ciclo de canções "Dichterliebe" (Amor de Poeta), de Robert Schumman. Ele organizou as canções de forma a que a ordem reproduzisse os diferentes momentos de uma paixão. As primeiras canções falam da euforia da descoberta do amor, as seguintes abordam o ciúme e a desilusão, até que o ciclo se encaminha para o puro delírio (Fonte: Revista Bravo).

segunda-feira, 31 de maio de 2010

The Cleaner

É uma série inspirada numa estória de vida verídica (Warren Boyd), representada pela figura do Willian Banks (Benjamin Bratt), um ex-viciado que sai da prisão e abandona o seu vício frente ao iminente nascimento de sua filha. Ele faz um pacto com Deus: em troca do apoio para superar o vício e ser uma pai decente para sua filha, ele se dispõe a trabalhar na recuperação de outras pessoas com problemas semelhantes ao seu. Willian aceita inúmeros casos onde deve equilibrar sua inabalável dedicação em ajudar os outros com os fantasmas de seus antigos vícios. Precisa, ainda, lidar com as cicatrizes que seu vício provocou na vida de sua família enquanto abusava das drogas: seu filho confronta constantemente seu papel de pai, sua filha tenta ser perfeita e evitar problemas em casa e sua esposa sempre põe em cheque sua confiança nele.

A série não é exatamente o que considero um programa capaz de formar no espectador uma idéia real sobre pessoas com problemas por abuso de drogas. Por outro lado, é como uma espécie de retrato em preto e branco. E muito bonita! Tem episódios realmente interessantes, além de comoventes. Ainda conta com uma trilha sonora INCRÍVEL. O vídeo que disponibilizo abaixo é o ínicio do episódio 7 (House Of Pain) da primeira temporada. Eu achei um vídeo bem bacana para dar uma pequena idéia sobre o formato da série. Começa com uma missa em uma escola, em razão da morte de uma das aluna por overdose. A dupla cantando em homenagem a aluna chama-se Karmina e "Walk You Home" é o nome da música. Também aparece o garoto com quem o Willian precisará trabalhar ao saber que esse esconde sérios problemas por abuso de heroína.


Nota: Infelizmente, o vídeo tem somente o áudio em inglês. Eu escrevi as falas para quem quiser entender e acompanhar melhor a cena. O Willian tem a fala escrita com letra normal. A música está escrita em itálico.




"Vá devagar.
O que você está pensando?
Está tudo bem.
Eu estou do seu lado.
Odeio ver sua tristeza.
Desejo que você possa transferir todas as suas dores para mim.

Fica aqui.
Está tudo bem chorar.
Deixa eu ajudar a..."


Quantas vezes eu tenho visto isso?
Mais importante: quantas vezes você viu?

Não posso imaginar como é ter o poder para mover montanhas...


"Lembre-se que você não está sozinho."


E ainda ficar parado assistindo a tudo isso.


"Todos temos perdas.
Mesmo o mais corajoso precisa de alguém.
A lua só brilha com ajuda do sol.
Não é seguro quando você esta caminhando sozinho.
Eu vou a pé para casa.

O sol saiu.
Mas eu sinto que vai chover.
Então, eu sempre vou iluminar o seu dia."


Eu entendo que tudo acontece por uma razão.
E entendo que existem motivos misteriosos para tudo o que você faz.

Mas, eu me pergunto se momentos assim não fazem você duvidar.
Sobre o quê? Nós.


"Mesmo o mais corajoso precisa de alguém.
A lua só brilha com ajuda do sol."


Eu sempre desejei ter sua capacidade.
De ver todas as peças como um todo.

Mas, para ver coisas iguais a essas...
Eu não a quero.


"Eu vou a pé para casa."


O pacto que fizemos. Que eu fiz.
Ás vezes, eu compreendo.


"Alguém, para mantê-lo forte.
É mais difícil quando você está por você mesmo.
Sucesso não é o mesmo se esta sozinho.
Não pode tê-lo sem perdas.
Precisa ser reto para fazer um circulo.
Eu prefiro a harmonia.
Sua música é a melhor companhia.

Mesmo o mais corajoso precisa de alguém."


E o que vem depois?
Outro inocente perdido?
Outra morte?
Outro funeral?


"Não é seguro quando você caminha sozinho.
Eu vou a pé para casa.
Eu vou a pé para casa."


Sim, às vezes, eu posso entender.
Outras vezes...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Another Brick in the wall from Israel? Not in Budrus!

Assistindo novamente o Manhattan Connection (o único programa de notícias que me agrada assistir...) tive a grata surpresa de saber a respeito do documentário “Budrus”, último trabalho da documentarista Julia Bacha, que o apresentou em entrevista. O documentário mostra como funciona a resistência palestina pacífica contra a ocupação israelense em Budrus, na Cisjordânia. O filme estreou esta semana no festival Tribeca Film, nos EUA e tem recebido críticas positivas em favor da sua produção. Destaco aqui o trailler em vídeo:



Aproveitando o assunto do post "Morro sob Morro", eu exibo aqui um vídeo da Julia Bacha sendo entrevistada a respeito do documentário "Encounter Point" (Ponto de Encontro). Ela comenta sobre a insistência que a mídia mundial dá na cobertura aos conflitos violentos entre Israel e Palestina e as conseqüentes tragédias derivadas desses conflitos, em detrimento dos importantes movimentos articulados por pessoas da sociedade civil, que atuam em ações pacíficas e que visam a aproximação entre os povos e em favor da paz.

Julia Bacha aponta para o fato de que esse documentário aborda, essencialmente, a possibilidade de haver um ponto comum para o díalogo entre os dois lados. Todavia, seu novo projeto, ela destaca, trata da importância que a atuação das pessoas da sociedade civil tem sobre essa mesma questão. Lembra do movimento organizado por civis e liderados por figuras como Gandhi e Martin Luther King, que tiveram êxito em muitas de suas reivindicações, a partir de suas atuações.


domingo, 2 de maio de 2010

"There is always hope". By Banksy

Banksy: (Bristol, 1975) é notório artista de rua inglês, cujos trabalhos em stencil são facilmente encontrados nas ruas da cidade de Bristol, numerosas manifestações de Banksy também são encontradas na capital britânica, Londres.

Suas obras são carregadas de conteúdo social expondo claramente uma total aversão aos conceitos de autoridade e poder. Em telas e murais faz suas críticas, normalmente sociais, mas também comportamentais e políticas, de forma agressiva e sarcástica, provocando em seus observadores, quase sempre, uma sensação de concordância e de identidade. Apesar de não fazer caricaturas ou obras humorísticas, não raro, a primeira reação de um observador frente a uma de suas obras será o riso. Espontâneo, involuntário e sincero, assim como suas obras. (Fonte: Wikipédia)










Criança hasteando uma sacola do Tesco como se fosse uma bandeira, enquanto outras duas prestam sua homenagem com a mão sobre o peito. A crítica ao monópolio do supermercado (o maior de Londres).



Cctv é o circuito interno de TV que se usa no país. Quase um Big Brother em grande escala.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Morro sob Morro

Faz certo tempo que ocorreu aquele acidente no Morro do Bumba. Faz um tempo ainda maior que não posto nada por aqui. Mas, estando de volta, venho aqui para, mais uma vez, questionar certas conclusões que acabam tornando-se uma espécie de parâmetro da normalidade, para quase todos à minha volta. Sem que isso deixe de causar mais a devida estranheza que tanto precisa causar.

Após essa tragédia, eu acompanhei, pela tv, muitos atores, cantores, apresentadores e todo tipo de celebridades opinando sobre o acidente. Foram opiniões com um conhecimento de causa que, sinceramente, me pareceu até que eram eles os pobres desabrigados. Houve ainda depoimentos comovidos e uma enorme quantidade de cobranças sobre aqueles que supostamente seriam os maiores responsáveis por aquele local se encontrar ocupado por casas irregulares.

O que eu tenho para escrever aqui é o seguinte... Aparecer para entrevistas para falar sobre essa tragédia é, em minha opinião, de um oportunismo sem fim. Parece-me importante questionar, primeiro, quem decide aparecer, apenas, para atribuir aos outros a responsabilidade e o dever de salvaguardar a vida de outras pessoas. É pertinente interrogar como essas pessoas, que aparecem na tv, simplesmente andavam por sua própria cidade, sem sequer estarem cientes que à sua volta existiam problemas respectivos à moradia e infraestrutura; ou, admitindo a possibilidade de estarem cientes a respeito de tais problemas, essas pessoas optaram por não tomar partido para evitar acidentes como o que ocorreu no Morro do Bumba. É nesse ponto que, falar sobre a responsabilidade dos outros, ao invés de sua própria escolha de não se envolver previamente com esses problemas, é o momento exato do oportunismo.

Protestos acalorados, opiniões politicamente corretas, shows e jogos beneficentes, etc. Perante a audiência para quem essas pessoas se dirigem, elas encontram uma forma de vender a idéia de que sempre estiveram sensíveis ao mal estar vivido pelos desabrigados, que a omissão das autoridades é o motivo responsável pela ocorrência de um desabamento e que resultou em tantas mortes. As pessoas aparecem para cantar, dar opiniões e falar de política quando ocorre uma tragédia. Mas, o que acontece quando não tem uma tragédia para fazer um show? Quando não tem um desabamento para criticar o problema de moradia da região onde se mora? Se essas pessoas não podem aparecer para mostrar os seus ideais e seus valores afirmativos, sem evidenciar sua própria imagem, para onde vai toda a militância e a vontade de resolver os problemas de sua própria cidade? Convém interrogar.

Outra questão se levanta tão importante quanto delicada. É uma afirmação que causa em muitas pessoas desconforto, mas que pode ser indício de uma questão que parece se tentar não revelar. Foi em um local repleto de lixo e num terreno irregular, no alto de um morro e sem a menor preparação para esse fim... Que as pessoas escolheram levantar suas casas. Existem sérios problemas de moradia em muitas cidades. Existe também o descaso do governo, o problema da distância de casa para o trabalho e tudo mais... Porém, construir sua própria casa no alto de um morro, onde sabidamente as chuvas costumam arrastar casas, é colocar a própria vida sob o controle do acaso. É esperar que uma melhor sorte lhe venha daí - melhor do que aquela que você obteve para si mesmo. O problema disso é que a chuva - ou qualquer outro fator dessa ordem: doença, acidentes, etc. - não obedece a nenhum tipo de moralidade. Portanto, não irá punir as razões pelas quais uma pessoa encontra-se numa situação caótica de moradia, ainda que existam condições sabidamente adequadas para se viver. Vou colocar um exemplo que considero claro para tratar sobre a questão da escolha, e que tem haver com muitas pessoas e diz respeito ao local de construção de suas casas. Quando as autoridades tomam alguma atitude, frente o risco de desabamento em determinada área, elas costumam mandar agentes para avaliar os riscos que as casas ali construídas oferecem, no caso de sofrerem com novas chuvas. Como sabem, as casas que oferecem tais riscos precisam ser desocupadas. Quando as pessoas são informadas que a casa corre risco de desabar, qual é normalmente o comportamento habitual nesses casos? Não desocupar as casas. Lacan cita um exemplo - para falar de outra coisa, é verdade - que me parece fundamental para abordar a questão da escolha. Um assaltante vira-se para a mulher e diz: "Ou passa a bolsa ou perde a vida!". E diante dessas premissas apresentadas a pessoa faz sua própria escolha. Mas, o que fica oculto nessa interrogação é o erro hermenêutico existente nessa oferta. A oferta correta seria: ou passa a bolsa e fica com a vida, ou perde a vida e depois perde também a bolsa. Não é uma escolha perder a bolsa. Ela será invariavelmente perdida nesse assalto. A única garantia que lhe é, injustamente, oferecida é ficar com sua própria vida. É a única coisa a qual lhe é oferecida e você pode garantir. E o que se costuma ver é que, o querer a vida não está acima de perder a casa. E me parece que o maior problema está nesse ponto onde a pessoa, mesmo numa oferta que parece irrecusável, mesmo numa escolha lógica onde ela só pode garantir uma única coisa - sendo essa a mais preciosa delas -, não é capaz de responsabilizar-se a fim de garantir sua própria sobrevivência. Se num momento iminente, em que dever garantir a vida lhe é uma opção, se a pessoa não faz essa escolha, me parece que em todos os outros momentos em que não exista essa pressão, ela se coloque não responsável pelas coisas que precisa e não tem, mas que sabe que deveria ter.

Portanto, o importante não está em alimentar uma postura de considerar aqueles que são os mais responsáveis. Todos fizeram escolhas: morar num morro íngreme e perigoso é uma escolha. Aparecer na tv para discursos políticos somente em momentos de tragédias é também uma escolha. Como também é o de não cumprir com seus deveres enquanto governante. Mas, é preciso você avaliar que escolhas possam fazer desaparecer a questão de suas queixas. E essas escolhas não terminam sempre tornando o outro fonte de seus próprios problemas. É preciso perceber que a sua participação na questão que você se queixa revela o seu real envolvimento com ela, e não exatamente o quanto você sofre ou se revolta. Isso vai além do que responsabilizar os outros pelos os incômodos acidentes que a vida causa em todos nós. Consiste em apropriar-se da questão que te afeta; responsabilizar-se por sua queixa. Existem pessoas trabalhando para melhorar o problema de moradia em áreas com risco de desabamento que sequer sabemos os nomes. Elas foram afetadas por essa mesma questão e escolheram atuar. É assim que a sua inquietação saiu do campo da queixa para a atuação, com a finalidade de obter melhorias frente esses problemas - problemas ao qual se queixava. É nesse ponto onde o que não pode ser feito é encarado com tranqüilidade. Pois, existe a confiança singular de que aquilo que você queria mudar para melhor, está sendo feito e por você.

Tomar com respeito a questão do acidente no Morro. Tomá-la como importante, com o intuito de levar adiante aquilo que se queixa e se responsabilizar pelas conseqüências que essa escolha acarreta e traz de mudança na vida de outras pessoas, é o melhor que se pode obter.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Do vazio no Budismo para um pensamento em Lacan. Aqui vai um conto budista...

O mestre japonês Nan-in concedeu uma audiência a um professor de filosofia. Aquele professor devia estar cansado de tanto andar quando chegou à cabana de Nan-in. E Nan-in disse: Espere um pouco. O homem devia estar com pressa. A mente está sempre apressada, está sempre procurando realizações instantâneas. Para a mente, é muito difícil esperar, quase impossível.

Nan-in disse: Vou preparar um chá para você. Você parece cansado. Espere um pouco, descanse um momento, e tome uma xícara de chá. Depois podemos conversar. E Nan-in ferveu a água, e começou a preparar o chá. Mas ele deve ter ficado observando o professor. Não só a água estava fervendo, o professor também estava fervendo por dentro. Não só a chaleira estava fazendo ruídos, o professor estava fazendo ainda mais barulho dentro dele, tagarelando, falando sem parar. Ele devia estar se preparando - o que perguntar, como perguntar, por onde começar. Devia estar num profundo monólogo. Nan-in deve ter ficado sorrindo e observando: Este homem está muito cheio, de tal maneira, que nada pode penetrá-lo.

Ao servir o chá, Nan-in encheu a xícara de seu visitante, mas continuou despejando sem parar. O professor começou a ficar apreensivo, pois o mestre não parava de despejar. A xícara estava transbordando. Logo o chá escorreria para o chão. Então o professor disse: Pare! O que está fazendo? Nem mais uma gota de chá cabe nesta xícara. Você está louco? O que está fazendo? E Nan-in disse: O mesmo acontece com você. Você está alerta para o fato de a xícara estar cheia, nada mais podendo conter, mas por que não está assim tão consciente a respeito de você mesmo? Você está transbordando com opiniões, filosofias, doutrinas, escrituras. Já sabe demais. Nada posso lhe dar. Você viajou em vão. Antes de vir até mim, deveria ter esvaziado a sua xícara. Então, eu poderia despejar algo dentro dela. Como esta xícara, você também está cheio de opiniões e idéias. Como posso mostrar-lhe o Zen, sem que antes você esvazie a sua xícara?

E eu lhe digo que você encontrou uma pessoa mais perigosa ainda. Eu não permitirei nem uma xícara vazia, pois você a encherá de novo. Você está tão viciado, ficou tão habituado, que não deixa a xícara ficar vazia nem por um momento. Assim que vê o vazio em qualquer lugar, começa a preenchê-lo. Você tem tanto pavor do vazio, tanto medo. O vazio se parece com a morte. Você irá preenchê-lo com qualquer coisa, mas o preencherá. E eu o convidei para vir aqui, para quebrar completamente essa xícara, de modo que, mesmo que você queira, não a poderá encher.

Diz o budismo: mesmo vazio, se você está presente, então está cheio. Até o vazio preenche você. Se você sente que está vazio, não o está absolutamente. Você está aí. Apenas o nome mudou. Agora você se chama vazio. A xícara não adiantará nada. Tem de ser quebrada completamente.

Só podia acontecer com um professor de filosofia. A história diz que um professor de filosofia foi ver Nan-in. Ele deve ter ido por motivos errados, pois um professor de filosofia, como tal, está sempre errado.

Filosofia significa intelecto, raciocínio, pensamento, argumentação. E esta é a maneira de estar errado, pois você não pode amar a existência se gosta de argumentar. A argumentação é a barreira. Se você argumenta, discute, você está fechado. Toda a existência se fecha para você. Então, você não está aberto, e a existência não se abre para você. Quando você argumenta, você afirma. Afirmação é violência, agressão, e a verdade não pode ser conhecida por uma mente agressiva, a verdade não pode ser descoberta pela violência. Você só conhece a verdade quando ama. Mas o amor nunca argumenta. Não há argumentação no amor, pois não há agressão.

Lembre-se: não apenas aquele homem era um professor de filosofia; você também é. Todo homem carrega sua própria filosofia; e todo homem é um professor, à sua maneira, pois você professa as suas idéias. Acredita nelas. Você tem opiniões, conceitos. Por causa das opiniões e conceitos, seus olhos estão embaçados, não podem ver; sua mente é estúpida, não pode conhecer. Idéias criam estupidez, pois quanto mais idéias existem, mais a mente está carregada. E como a mente carregada pode conhecer? Quanto mais idéias existem, mais elas se tornam como poeira que se acumula sobre um espelho. Como pode o espelho refletir? Sua inteligência fica realmente coberta por opiniões, pela poeira, e qualquer pessoa com opiniões certamente será estúpida e sem brilho.

Por isso os professores de filosofia são quase sempre estúpidos. Eles sabem demais para realmente saberem alguma coisa. Estão muito carregados. Pode haver diferenças de quantidade, mas todas as mentes são qualitativamente as mesmas, pois a mente pensa, argumenta, coleta, junta conhecimento e torna-se estúpida. Apenas as crianças são inteligentes. E se você puder preservar sua infância, se puder recuperá-la continuamente, você permanecerá inocente e inteligente. Se você acumula poeira, a infância é perdida, a inocência deixa de existir, e a mente torna-se estúpida e embaçada.

As pessoas que estão cheias de perguntas, estão sempre procurando respostas,. É tolice preocupar-se com perguntas e respostas. É sempre assim, pois a mente gera perguntas. A mente é um mecanismo para criar perguntas. Alimente-a, e ela lhe dará uma pergunta, e muitas outras se seguirão; dê-lhe uma resposta, e imediatamente ela a converterá em muitas perguntas. Você está aqui cheio de perguntas. Sua xícara já está cheia. ...

Vazio significa que nem a xícara restou. Todas as paredes desapareceram; O fundo da xícara caiu. Você tornou-se um abismo. Muito é possível, se você permite. Mas permitir é árduo, pois para permitir, você terá de se render. Vazio significa rendição. Nan-in estava dizendo àquele professor: Incline-se, renda-se, esvazie a sua cabeça.

No fundo, a pergunta é uma só — a ansiedade, a angústia, a falta de sentido, a futilidade de toda esta vida, sem saber quem você é. Mas você está repleto. O trabalho aqui será uma destruição, uma morte. Se você estiver pronto para ser destruído, algo de novo surgirá. Toda destruição pode tornar-se um nascimento criativo. Se você está pronto para morrer, pode ter uma nova vida, pode renascer. O fenômeno real, a transformação, acontecerá em você. Haverá sofrimento, pois nenhum nascimento é possível sem sofrimento. Muita angústia surgirá, pois você a tem acumulado, e ela tem de ser descarregada. Uma purificação e catarse profundas serão necessárias.

Quando o sofrimento é insuportável, a bem-aventurança está muito próxima. Por isso não tente escapar do sofrimento — esse é o ponto onde você pode pôr tudo a perder. Não tente evitá-lo; passe por ele. Não tente achar um jeito de dar uma volta. Não, isso não adiantará. Passe através do sofrimento. O sofrimento queimará você, Destruí-lo-á, mas, na verdade, você não pode ser destruído. O que pode ser destruído é apenas o lixo que você acumulou. O que pode ser destruído é algo que não é você. Quando tudo isso for destruído, você sentirá que é indestrutível.

Seja vazio, mas não pense isso, do contrário, estará enganando a si mesmo. Você trouxe muitas filosofias com você. Abandone-as. Elas não o têm ajudado absolutamente; não têm feito nada por você. Já é tempo, agora é o momento certo. Abandone-as completamente, não apenas partes, fragmentos delas. Sua mente é uma bagagem desnecessária. Você está carregando um peso desnecessário. Abandone-o.

Buda costumava dizer: Onde quer que você experimente a água do mar, o gosto é sempre o mesmo, sempre salgado.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Decifrando os homens - E eles o que querem?

Eu assisti uma entrevista rica com o filósofo e psicanalista Luiz Felipe Pondé, o que me motivou muito a escrever esse post. Vou publicar aqui o que absorvi da entrevista e o que eu próprio tenho a dizer a respeito desse assunto.

Recapitulando a pergunta: "O que querem os homens?". As mesmas coisas de sempre. Essa é a bem da verdade. Por outro lado, não passa desapercebido que os homens estão ainda mais perdidos do que antes quando o assunto é mulher. Se antes um trabalho, um casamento e uma casa eram garantias de sucesso para uma vida feliz, nesse mundo repleto de mulheres independentes é preciso inventar uma nova fórmula. E qual seria ela? Bem... Primeiro, vamos aos fatos.

Quando a mulher começou a se deixar também ser explorada pelo capital, ter um trabalho, passou a querer deixar de ser o segundo sexo, a coisa mudou. A mulher era entendida pelo homem como: mãe, esposa, amante, colega de trabalho, etc... Sempre a partir de um papel em contraponto ao dele - homem. Agora que a mulher pode ESCOLHER sua vida, e o homem não sabe o que a mulher quer dele, isso traz confusão. É preciso se reinventar. No momento em que a mulher desencaixou e adquiriu autonomia, uma vida própria - a despeito de viver com um homem - e jogou isso na cara dele, isso assustou... Quando ela tem para onde ir, ela passa a querer (e poder!) decidir também. A mulher de hoje pode decidir. Ela ganha o dinheiro dela e pode dizer: "Eu vou embora". Antes ela não tinha para onde ir. Ela só esperneava, ficava duas horas reclamando, mas ficava.

Por outro lado, o homem continua tendo mais vantagens, por que eles ainda ganham mais quando se trata de melhores empregos e salários. O trabalho para a mulher é uma opção. Arrumar um homem que a sustente certamente é a outra. Mas, ela estudou, está preparada e quer ser independente. Essa mulher mete medo. O homem não sabe o que essa mulher pode querer dele.

Muitas vezes a gente ouve as mulheres dizerem que querem um homem sensível. Mas, ela não quer isso! Ela quer o homem sensível em certos momentos. Mas, quer que o cara funcione que nem um detento com 20 anos de cadeia nas costas na hora H.

O homem precisa aprender que pode viver sem depender da mulher. Ele precisa aprender a viver sem uma mulher do lado dele. É como se ele vivesse provando o tempo todo que o pau dele sobe sem mulher.

Quando o homem fica fraco a mulher se desorienta. A mulher não quer o homem que não saiba se planejar, não saiba administrar sua vida, não tenha um plano de fuga. Não é que ela seja interesseira. É que a mulher mudou muita coisa mas, com os homens elas continuam as mesmas. A crítica feminina tirou todos os privilégios dos homens, aquilo que era chamado de machismo, e deixou apenas as cobranças daquilo que ela, mulher, deseja. Então os homens passaram a tratar as mulheres com despeito. Como se dissessem: "você não queria direitos iguais? Então, é tudo por sua conta". "A gente pode sair, ir para balada, se divertir, mas depois é cada um na sua casa!". Como se o relacionamento fosse literalmente um escambo. Então, as mulheres sentem isso como vingança. Por que ela ainda espera o investimento do homem. É assim que ela obtém uma prova que seu interesse por ela é verdadeiro. Quando a mulher quer investimento, ela deixa o homem pagar a conta. Quando ela não quer, ela divide. Vai depois embora para casa, sem dívida e nem culpa.

É por isso que para os homens não existe opção. Se você não tiver sucesso profissional... FUDEU! Para os homens não existe plano B. Mas, afinal, o que querem os homens? Bem... Descobrir de algum modo que tudo o que são não está estabelecido por aquilo que a mulher precisa deles. Mas, ainda precisam encontrar uma forma de viver sua vida sem aquele roteiro que obedeciam seus pais e avós. Devem se reinventar. E tenho dito!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Psicóloga francesa defende infidelidade masculina para ajudar o casamento

Uma das mais famosas psicólogas francesas causou polêmica ao defender, em um livro recém-lançado, que a infidelidade masculina é boa para o casamento.

No livro Les hommes, l'amour, la fidélité ("Os homens, o amor, a fidelidade"), Maryse Vaillant diz que a maioria dos homens precisa de "seu próprio espaço" e que para eles "a infidelidade é quase inevitável".

Segundo a autora, as mulheres podem ter uma experiência "libertadora" ao aceitarem que "os pactos de fidelidade não são naturais, mas culturais" e que a infidelidade é "essencial para o funcionamento psíquico" de muitos homens que não deixam por isso de amar suas mulheres.

Para Vaillant, divorciada há 20 anos, seu livro tem o objetivo de "resgatar a infidelidade". Segundo ela, 39% dos homens franceses foram infiéis às mulheres em algum momento de suas vidas.

Fraqueza de caráter

"A maioria dos homens não faz isso por não amar mais suas mulheres, Pelo contrário, eles simplesmente precisam de um espaço próprio", diz a psicóloga.

"Para esses homens, que são na verdade profundamente monógamos, a infidelidade é quase inevitável", afirma.

Para Vaillant, os homens que não têm casos extraconjugais podem ter "uma fraqueza de caráter".

"Eles são normalmente homens cujo pai era fisicamente ou moralmente ausente. Esses homens têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Eles não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem", afirma ela.

(http://extra.globo.com/saude/plantao/2009/12/30/psicologa-francesa-defende-infidelidade-masculina-para-ajudar-casamento-915403210.asp)

Ainda estou considerando opinar ou não sobre a matéria. Por enquanto, deixo a seguinte pergunta: "E agora, moçada?".

domingo, 29 de novembro de 2009

Amor: O Mito, O Embuste e a Psicanálise

Vou contar uma estórinha que não começa com o famoso “Era uma vez...”. É sobre um mito. O mito do nascimento do Amor (Eros) – tal qual descrito por Platão em O Banquete. Quando nasceu Afrodite, os deuses banquetearam e entre eles estava Poros (o Expediente, O Astuto, A Riqueza), filho de Métis. Depois de terem comido, eis que aparece Pênia (A Pobreza) para mendigar, pois tinha sido um grande banquete. Ela não entrou, porque não tinha nenhum presente a oferecer. Aconteceu que Poros, embriagado de néctar, entrou nos jardins de Zeus e, pesado como estava, adormeceu. Pênia, então, pela carência em que se encontrava de tudo o que tem Poros, e cogitando ter um filho seu, dormiu com ele e concebeu Eros. Por causa disso, Eros tornou-se seguidor e ministro de Afrodite, porque foi gerado durante as suas festas natalícias; e também era por natureza amante da beleza, porque Afrodite também era bela.

Foi por intermédio desse encontro que nasceu Amor (Eros), resultado de um masculino passivo (amado), desejável, e um feminino ativo (amante), desejante. Convém explicar o que ocorre entre o amante e o amado. O que é o amante? É aquele que, sentindo que algo lhe falta, mesmo sem saber o que seja, supõe em outro (o amado) algo que o completaria. O amado, por sua vez, sentindo-se escolhido, supõe que tem algo a dar, sem saber bem o quê. Mas, como o amado é também um ser faltante (e falante), algo também lhe falta, como ao amante. Assim, o que ambos têm a dar é um nada, um vazio. E mais: aquilo que o amado supõe ter para dar, não é o que falta ao amante.

O amante não sabe o que lhe falta e o amado não sabe o que tem - um não-saber que é do inconsciente.

Normalmente, as crianças têm a mãe como o primeiro objeto amoroso. Freud descobriu, em sua auto-análise, que, quando criança, teve sentimentos de amor para com sua mãe, e de ciúme em relação ao pai. Toda criança passou por isto, embora o tenha recalcado - o que vai acarretar mais ou menos dificuldades nas escolhas de objeto posteriores. Estas escolhas são mediadas por um modelo, o de um outro. Este é o processo que instaura a estruturação do sujeito. A criança que não teve ainda acesso à linguagem, que tem uma imagem imprecisa de seu próprio corpo, não tem noção do eu e do objeto, não tem sua identidade de verdadeiro sujeito. Seu investimento é auto-erótico. Tudo se passa no registro da necessidade. A estruturação implica em ultrapassar o registro da necessidade para o do desejo. O grito e o choro, inicialmente, expressão de insatisfação e desconforto, tomam-se apelo, demanda de outra coisa. A resposta do outro, sob a forma de olhar de reconhecimento, vai constituir a identidade do sujeito. É o chamado narcisismo (primário), investimento do sujeito em si mesmo, nesta imagem de si mesmo confirmada pelo outro. A esta identificação primordial vão se suceder as identificações imaginárias, ainda exteriores, a ponto de Lacan dizer que "o eu é um outro".

Freud aponta o fato pouco raro de que muitos homens não conseguem desejar a mulher que amam, nem amar a mulher que desejam. É que a mulher amada e respeitada, escolhida segundo um modelo da mãe, torna-se, por isto mesmo, proibida.

Mudando de pau para cacete. Em O Banquete também está escrito: "é impossível a qualquer pessoa dar aquilo que não tem, nem ensinar aquilo que não sabe". O amor é um significante, uma metáfora, uma substituição: É na medida em que a função do amante, na medida em que, ele o sujeito da fala, vem no lugar, substitui a função do objeto amado, que se produz a significação do amor.

Lacan afirma que "amar é querer ser amado". Sendo assim, no mesmo momento em que o amante constitui alguém como amado, transforma-o em seu amante, e vice-versa. Do lado do amante, está a posição ativa, que provoca automaticamente sua reversão em passividade. A metáfora do desejante aponta para a resposta à questão: "o que é desejado? É o desejante no outro".

Mas, o paradoxo do amor ostenta seu lado fraco, um impasse e um problema, na medida em que "o sujeito não pode satisfazer a demanda do Outro se não o rebaixando, fazendo deste Outro o objeto de seu desejo".

Mesmo assim, o amor é privilégio do ser falante. Os animais não amam porque não podem demandar a um outro que produza a metáfora do amor. Por isto, se alguém responde à demanda de amor dando alguma coisa sem metaforizar, não está amando. É um engano, um logro. "Há, no rico, uma grande dificuldade de amar". Porque ele se apressa em responder à demanda, dando o que tem. Para Lacan, "dar o que se tem, isso é a festa, não é o amor". O rico, ao dar, quer se livrar do pedinte. Dar, para o rico, é o mesmo que recusar o amor. A má reputação dos ricos os dificulta de entrar no reino dos céus. Ali só entram os santos, os que, não tendo nada para dar, sendo pobres, podem amar verdadeiramente, estando aí sua riqueza.

E o analista? Este se coloca, inicialmente, na posição de amante, de demandante. Já que decidiu ser analista, este desejo lhe indicou que algo faltava. Faltava ser analista. Falta fundada no desejo de saber sobre o desejo do paciente, do amado. O analista pede, então, que o paciente lhe dê ou fale algo que ele, analista, não sabe o que é. O paciente, por sua vez, supondo que tem algo a dar, a dizer, o seu não saber sobre os sintomas, inverte a situação, passando à amante. Esta gangorra do amante-amado, vai se substituindo. O paciente sabe que tem algo não-sabido, o analista sabe que seu saber é só suposto. Assim, cada um só tem a dar um nada. Isto é a transferência, dar o que não se tem - o verdadeiro amor. Diz Lacan: "Para que o analista possa ter aquilo que falta ao outro, é preciso recusar o saber sobre o paciente. É preciso que ele esteja sob o modo de ter, que ele não seja, ele também, sem tê-lo, que não falte nada para que ele seja tão sem saber quanto seu sujeito". Daí a importância de que o analista não compreenda e não confie na sua compreensão. É bom até duvidar dela. Ele não tem que procurar, mas convém achar, justo onde não compreende e não espera encontrar. Pois, "é somente na medida em que, decerto, ele sabe o que é o desejo, mas não sabe o que esse sujeito, com quem embarcou na aventura analítica, deseja, que ele está em posição de ter em si, deste desejo, o objeto". E se o analista sabe o que é o desejo, sabe-o pela própria experiência de se ter defrontado com a causa do desejo em sua própria análise. Foi um processo de depuração de um desejo mais forte, uma mutação na economia de seu próprio desejo, que o transformou em desejante, habilitado a ocupar o lugar de desejado, lugar de causa do desejo.

Estão dadas assim as condições para que aconteça o verdadeiro amor, no dizer de Lacan: "A cela analítica, mesmo macia, não é nada menos que um leito de amor".

Duas pessoas se encontram, com determinada freqüência, durante meses, durante anos, numa salinha trancada, onde passam horas a sós, falando do que há de mais íntimo, pessoal, secreto, sofrido, magoado, esperançoso, feliz, alegre, todas as fantasias à solta, nenhum risco de julgamento ou censura. Sem falsas promessas, dizem-se coisas que a ninguém mais é dado ouvir, nem aos pais, irmãos, parentes, amigos, namorados, amantes, parceiros, colegas; coisas que, se não fossem ditas ali, nunca mais seriam proferidas pelo resto da vida, e isso, diante de alguém total e incondicionalmente disponível a escutar, sem limites. Então, isto não é o grande e verdadeiro amor? Aquele que dá o que não tem?

Concluindo: "Se o amor é dar o que não se tem, é bem verdade que o sujeito pode esperar que lhe dêem, já que o psicanalista não tem nada mais a lhe dar. Mas, mesmo este nada, ele não o dá - e é melhor assim. É por isto que, este nada, paga- se a ele – e generosamente, de preferência – para mostrar que, se não fosse assim, isto não seria caro".

Editado e adaptado de: Idéias de Lacan - Oscar Cesarotto

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ron Mueck

Vou publicar aqui as fotos do incrível trabalho Ron Mueck. É um tipo de arte mais contemporânea, ainda carece de maior divulgação. Fiquei admirado com a sensibilidade do artista em reproduzir muito nitidamente as reações de suas esculturas sendo observadas pelas pessoas. Exprimindo variados tipos de emoção, cada uma delas parece estar experimentado uma situação a qual só podemos supor. Eu também só conheci (e por acaso!) esta semana e estou trazendo aqui para o blog esse achado. Senhoras e senhores, eu apresento a vocês, o incomparável: Ron Mueck.

Ron Mueck: (Melbourne, 1958) é um escultor australiano hiperrealista que trabalha na Grã-Bretanha. Este escultor utiliza efeitos especiais cinematográficos para criar obras de arte. São incrivelmente realistas e se não fosse o tamanho de suas esculturas certamente seriam fáceis de serem confundidas com pessoas. (Fonte: Wikipédia)





















segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sua coluna CAPRICHO de toda semana.


O que querem as mulheres? Foi a pergunta que Freud se fez um dia. Morreu antes de conseguir respondê-la. A resposta foi descoberta há uns dias trás. Um brilhante comediante foi capaz de respondê-la: "tudo". Simples, não? Como toda resposta importante costuma ser. As mulheres querem tudo. Só as mulheres podem falar isso: "tudo!". Mas, ultimamente, esse desejo tem levado às mulheres a um estado de intenso desespero. As mulheres não podem ter tudo. Elas não podiam antes e também não podem ter agora. Então, o que mudou? É que antes elas queriam ter tudo, porém, naquela época de antigamente, eram poucas as coisas que efetivamente poderiam ter: um marido provedor, filhos, um lar e uma vida confortável = vida feliz/ou um adoecer histérico. Agora, as mulheres, a cada dia, querem ter mais coisas: uma carreira profissional de alto nível; uma casa para chamar de "sua" (antes de uma para chamar de "nossa"); encontrar um homem ideal (sem aspas, porque, sim, eu provoco!); ser mãe e também estar sempre perto dos filhos; viajar pelo mundo (peraê... Isso deveria ou não ser antes???); ter dinheiro para as contas estarem sempre pagas no fim do mês; um carro que saiba estacionar sozinho; ter aos 40 o mesmo peso dos 22 anos; e ter uma quantidade exata de bolsas e sapatos para cada combinação de roupa que ela queira montar. Muita coisa, não é? Na verdade, não. Peço desculpas as minhas leitoras por ter feito uma lista resumida dos objetos mais comuns de seus desejos, enumerei quase todos os que me vieram à cabeça. Por outro lado, em qualquer área no mundo, que forme qualquer espécie de analista, este, diante de um projeto que tenha essas pretensões, daria categoricamente, como parecer, a inviabilidade de tal empreitada. E as mulheres com isso? Nada. Os desejos das mulheres não dão a mínima para as análises dos especialistas. Eles estão lá pressionando os mais louváveis esforços de equilíbrio da mulher moderna, e elas tem diariamente sofrido com essa gigantesca quantidade de exigências.

Tudo a respeito deste mundo que conhecemos, é que ele aumentou - e muito - o número de nossas escolhas. E renunciar todas essas inúmeras possibilidades, em detrimento de uma única, que nunca nos dá qualquer garantia mínima de retorno, nos faz sofrer no exato momento em que tomamos uma decisão. E é nesse tipo de mundo que a mulher mais evita viver. Por que o custo para ela é sempre muito alto - maior que para os homens, em comparação. A felicidade das mulheres está diretamente envolvida com a necessidade de flutuar por suas fantasias. Este mundo rápido, dinâmico e infinito de escolhas atrapalha o ritmo feminino. Paradoxalmente, este mundo é resultado da exigência feminina de participar ativa e livremente nos rumos que a sociedade deveria tomar. É um mundo que a mulher ajudou a construir, fundamentalmente, com seus ideais - ainda que ela tenha, tardiamente, se dado conta que era impossível saber que esse era o bicho que ia dar. Nós homens - poucos acostumados a esperar que decidam por nós- ficamos a tentar encontrar uma maneira de viver num mundo onde precisamos aprender uma forma de esperar o tempo necessário para a mulher se ambientar com seu novo papel. Para elas se acostumarem com o dever de assumir escolhas, aceitar renúncias e pouco sofrer com as incertezas. Enquanto nada disso acontece, os homens vão, paulatinamente, explorando seu lado emocional e perdendo sua virulência capilar. Triste de ver...

domingo, 4 de outubro de 2009

Lições aprendidas por aqui num final de semana...


Poema Em Linha Reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de campos (vulgo, Fernando Pessoa) em, "Fernando Pessoa - Obra Poética (1972)".

domingo, 27 de setembro de 2009

A Psicoterapia na TV


Deu no site do CRP 01:

"Psicoterapia na TV

As representações da ficção, podem desencorajar pacientes

Um estudo conduzido por pesquisadores da Iowa State University, revelou que as representações televisivas de atendimentos psicológicos podem criar nos telespectadores idéias equivocadas de como se processa, na prática, a psicoterapia. Consequentemente, isso pode criar uma resistência naqueles que precisam desse tipo de ajuda.

Os pesquisadores descobriram que, ao verem personagens de televisão passarem pelo tratamento, as pessoas saíram com percepções negativas da terapia pela palavra. O estigma é, na maior parte das vezes, resultado da forma esterotipada como pacientes e terapeutas são mostrados pela TV, de acordo com os pesquisadores.

Fonte: Mente e Cérebro"


Não é nem preciso um analista com anos de experiência na clínica. Um bom estudante da área é capaz de formular questões importantes a respeito desse assunto. E em verdade, elas existem aos montes quando tratamos este tema. No meu modo de ver, muitas pessoas deixam de ver que existem também aspectos positivos sobre a pisocterapia apresentada na tv. Não, não é que elas não possam constatar, como eu, que existem acertos. Muitas vezes até, estas pessoas reconhecem os mesmos tais acertos quando os encontram. Mas, invariavelmente, terminam por cair em avaliações econômicas, numa relação de custo/benefício, da mensagem sobre psicoterapia que é transmitida para a sociedade pela tv. E isso é ruim? Não sei... Talvez não. É importante esta preocupação sobre o que está em jogo nesses casos. Mas, poucas vezes encontro alguém que conte sua própria impressão, para além de ocupar um lugar de especialista numa análise crítica. É por isso que escrevo aqui este post. Para além do que exista de certo ou errado em: Head Case, InTreatment, Web Therapy. The Sopranos e etc, vou contar minha impressão num desses exemplos. Foi sobre o primeiro episódio da nova temporada de House.

Primeiramente, tenho que dizer que minha impressão foi boa. E não foi exatamente sobre o episódio. Como disse anteriormente, não estou aqui avaliando criticamente as implicações sobre psicoterapia na tv. Nem, tampouco, de qualquer outro lugar que possa ser feito por um especialista. Foi boa, por que reconheci na tv aquilo que é particular e que reverbera em mim. Vi a tentativa de apresentar uma possibilidade de transformação, ora imposta, ora, em certo momento, desejada pelo personagem. Vi o médico (psicoterapeuta) tendo um papel fundamental nesse ponto. E vi também os efeitos derivados dela. São essas possibilidades que ocorrem nessa relação, que não necessariamente são compreensíveis para o sentido que o paciente sempre tenta encontrar, mas que ocorrem, e levam o sujeito a falar de seus conflitos. Levou tempo - e quem acompanha sabe o quanto - mas, o House enfrentou uma parte deles nesse episódio. Foi só mais uma mentirinha que foi (bem) feita e contada na tv, ainda que eu tenha encontrado uma razão para admirar - e vir aqui postar - o que, infelizmente, para os outros é somente motivo de polêmica.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Teu, ao meu, ao nosso gosto!


Está é uma série bastante interessante para quem ainda se entusiasma com pessoas debatendo questões importantes (que atormentam nossas almas, como diria um amigo!) e tratando tudo com inteligência, sarcasmo e diversão. A série é apresentada pelo neurologista, dramaturgo (e também ateu!) Jonathan Miller. Ele entrevistou seis expoentes de diversos campos. Os nomes mais conhecidos são do autor Richard Dawkins e do dramaturgo Arthur Miller. Mas, todos debatem suas visões pessoais e oferecem análises esclarecedoras do ateísmo. Tem umas entrevistas que são realmente enfadonhas (eu achei a do físico, por exemplo). Mas, eu adorei muito a primeira, com o filósofo, o Colin McGinn. Eles abordam especialmente na maior parte dos debates: a questão da religião nas sociedades, o repúdio que os religiosos sentem em relação aos ateus e a necessidade das pessoas acreditarem em uma divindade. O meu parâmetro para avaliar positivamente a série foi, também, ter assistido com pessoas religiosas, que ficaram admiradas da forma com que o tema foi tratado. Faço outra recomendação para àqueles que curtem assistir os bons documentários produzidos pela BBC.

domingo, 9 de agosto de 2009

Eu poderia casar com aquela bunda...

Graças à presteza da velox, eu pude rapidamente resolver o problema da conexão e restabelecer minha internet no tempo recorde de 3 semanas(sic). No intuito de aproveitar melhor esse tempo, procurei indicações de todo tipo: leitura, música, bares, filmes... Faz tempo que haviam me falado do badalado O Cheiro do Ralo, e depois de uma nova investida para que eu assistisse, por fim, resolvi ir catar o tal filme na locadora. Eu assisti ótimos filmes que trataram a questão das psicoses. Forrest Gump, é um bom exemplo. Feito no Brasil, assisti o acurado e bem produzido Estamira, e fiquei realmente impressionado. Mas, nenhum outro filme tratou com tanto requinte e clareza (até mesmo didática!) a psicose como O Cheiro do Ralo.

Lourenço é o dono de um antiquário que compra quase todo o tipo de artigos que as pessoas queiram vender. Estas, em comum, antes de se desfazerem de seus objetos, procuram narrar à Lourenço toda a história de seus preciosos itens. Lourenço é indiferente ao valor afetivo que as pessoas atribuem a seus estimados objetos. E o fato das pessoas tentarem lhe vender aquilo que tanto apreciam torna a situação ainda mais dolorosa. Lourenço nunca fica convencido que exista mesmo o valor que as pessoas anunciam. Afinal, se estimam tanto, por quê lhe vendem? "É que estou mesmo precisando...". A expressão de desprezo do anti-herói é cômica e trágica. Lourenço não suporta a atitude corruptível das pessoas, e isso o torna extremamente interessante e complexo. O espectador sempre oscila suas opiniões sobre as atitudes ácidas de Lourenço para com às pessoas e a situação dolorosa que estão passando. Por outro lado, assim como as pessoas que despreza, ele próprio é capaz de atribuir um valor superestimado a certos objetos. Vemos Lourenço comprando um olho de vidro e a prótese de uma perna por uma quantia bastante alta. Portanto, ou Lourenço trata objetos como simples objetos, ou trata os objetos lhes conferindo um valor afetivo ainda mais significativo - do que, por exemplo, às pessoas a quem despreza. Essa discrepância é o que sinaliza a própria estrutura psicótica do personagem. Ao adotar a crença cega (rs) que o olho de vidro comprado de um veterano de guerra é o olho de seu pai, entendemos que o olho - enquanto parte de um corpo - substitui a totalidade desse corpo (corpo de seu pai). O mesmo acontece com a prótese da perna. A idéia de Lourenço é tentar construir o corpo de seu pai e dar-lhe vida - um pai Frankenstein -, e ao confiar na possibilidade de concretizar seu desejo no plano do real (passar ao ato) se reconhece que a certeza de poder reunir novamente as partes do corpo de seu pai, para pode viver junto a ele, é sintoma claro da ruptura característica da loucura. O olho e a perna não são mais partes de um corpo, como foram um dia. Lourenço admite que tanto o olho quanto a perna são o corpo de seu pai. Lourenço se encontra alienado num mundo onde existe apenas o estado Ser(pai)-um olho/perna; parece-lhe impossível voltar a encontrar um mundo do Ter, onde uma pessoa pudesse ter perna/olho, sem ser ela mesma a própria perna e olho. De todo modo, quando não revela interesse pelo que está sendo vendido, Lourenço efetua um exercício de subjugar as pessoas desvalorizando o que lhe oferecem para vender, ao passo que exercita seu domínio sobre seus clientes explorando suas necessidades financeiras.

A ligação que Lourenço faz entre a bunda e o cheiro do ralo é a mais interessante do filme - e ele próprio explica! Daria para tratar muitas outras questões aqui porém, teria que escrever um post ainda maior. Fica, então, aqui registrado que a indicação do filme valeu muito à pena e a minha própria recomendação para todos assistirem um ótimo filme, para quem se interessar pelo tema e também por comédias ácidas.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

We are carnaval!


Sexta à noite em Salvador. É o momento das almas de expressões alegres e corações vazios saírem às ruas. Olhe em volta: Os restaurantes lotados; os bares entupidos; E as boates que prometem não revelar os segredinhos tórridos de quem espera na fila. Todos riem cercados de amigos. Todos que conheço são amigos. Salvador é um Paraíso! Enquanto ando, ouço às pessoas dizerem: "Aqui vai bombar!"; "Não tô precisando de homem!"; "Olha aquele rabo."; "Vou vomitar..."; "Que cara chato..."; "Que delícia!"; "Tô cansada, vou para casa."; "Embora? Só quando varrerem!". "Ele é sexy."; "Você é brother."; "Te amo, amiga!"; "Pra que fui sair...". Em todos os locais na noite de Salvador é assim... Pessoas que vão tentar exibir o melhor. Pessoas que vão tentar esconder o pior. Todas elas procuram um happy end. Alguns acreditam que possam encontrar em um par romântico, outros em ter sucesso em levar para cama. Outros nem acreditam mas, estão lá mesmo assim... Temem perder a oportunidade ficando em casa. E quem a quer perder nesse mundo? Orkut, MSN, Facebook, Twitter. "Por favor, não me deixem de fora! Me contem tudo! Onde é que você está?". Não é desespero... É alegria! Salvador... Terra de festa o ano inteiro. De manhã ela se queixa. De noite... Ela te queixa! Não pareça necessitado ligando no dia seguinte... Espere uns dias, pelo menos... Cumpra o protocolo. "Você faz o que? Trabalha onde? Mora em que lugar?". Agora você me "conhece"... Já sabe quem sou. Salvador... Terra da fantasia. E da fantasia de carnaval o ano inteiro! Por que ser você mesmo se a festa é a(à) fantasia? Quanto mais você a veste, mais caro você parece! E todos querem parecer melhor em Salvador. Todos querem te conhecer aqui. Mas, por favor, não tire a fantasia... Por favor, não a tire...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

New WAR - Nukes


Este senhor pode vir futuramente a nos apresentar um temor conhecido apenas em livros de história e filmes. Este é um fantoche de Kim Jong iI, retratando comicamente sua aparência bem peculiar. Porém, suas atitudes não prometem ser motivo de alegria. Kim Jong-iI é o líder (ditador) máximo da República Popular Democrática(?) da Coréia do Norte. Além disso, é também presidente da Comissão Nacional de Defesa, um orgão que recebe 1/3 do PIB nacional para armamento militar (40 bilhões de dólares). A Coréia do Norte detém o terceiro maior exército do mundo - estima-se mais de um milhão de soldados. Ele tem planos de conquistar o respeito das demais potências utilizando à força, se preciso. E tem dado provas de que deve mesmo ser levado à sério: Em abril realizou um teste nuclear com uma bomba de impacto semelhante ao poder atômico da bomba de Hiroshima; Lançou também mísseis "para teste" no Mar do Japão; Lançou um míssil que poderia acertar a América do Norte - ainda que sua posição oficial foi que se tratava apenas de um míssil de satélite; Recusou-se a aceitar a proposta de desarmamento nuclear que vem sendo tratada por grandes países; Rompeu o armistício com a Coréia do Sul; e, por fim, afirmou que qualquer tentativa de interceptação de seus navios para inspeção sobre armas nucleares ou formas de bloqueios econômicos serão consideradas como uma declaração de guerra. De tudo que eu pude ler a respeito, não existe, nesse momento, qualquer estratégia diplomática para entrar em acordo com Kim Jong. Há tempos que os EUA vem subornando a Coréia do Norte com petróleo e alimentos em troca de um acordo de não proliferação nuclear - acordo não cumprido pela Coréia. Agora, Kim Jong ficou ganacioso e quer muito mais (numa atitude surpreendente para um chantagista!). Ele promete não recuar enquanto seus termos não forem atendidos. E uma guerra com armas nucleares pode estar próxima...
Eu sempre achei que a bomba americana lançada em Hiroshima e Nagasaki fosse uma atitude estúpida e irracional. Eu procuro continuar sustentando esta posição mas, tenho muitas dúvidas. Foi a conta de que uma análise humanitária de ações militares ocorre, normalmente, em ambientes seguros e numa época em que a guerra só acontece distante dos muros de nossas casas. Kim Jong pode mesmo levar a cabo seus planos de ataque militar (e mesmo nuclear) contra outros países, portanto, questiono: diante de um ataque nuclear realizado pela Coréia, será que a humanidade ficaria contrária à uma resposta militar frente à ofensiva nuclear norte coreana? Será que a nossa ética irá permitir que a morte de milhares de pessoas num ataque nuclear fique em vão e não deva ser combatida com a mesma intensidade, se preciso? Ou será ainda que este pensamento apenas vem confirmar que a natureza humana anseia pelo confronto ainda que disfarçada por argumentos morais? Ainda que estas respostas não passem apenas de um mero exercício de reflexão - por que não serei eu o responsável por tomar uma decisão visando dissolver esta questão -, temo apenas pela ameaça que este conflito realmente representa: uma guerra que não ocorre em fronteiras, nem entre exércitos. Mas, entre longas distâncias, no interior de cidades e matando milhares de pessoas instantâneamente. Espero que a nossa geração não tenha que atravessar período tão tenebroso.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sim, senhora!


O fim de uma Era está para acontecer. O mundo machista que conhecíamos está bem perto do fim. A última fronteira entre homens e mulheres será derrubada. É, meus amigos, acreditem ou não, as mulheres estão produzindo seus próprios filmes pornôs! Tolos foram àqueles que pensaram que às mulheres não executariam seu plano bem elaborado de dominar o mundo. Elas não querem ter direitos iguais... Elas querem os NOSSOS direitos. Não estão nos deixando NADA... Não está sobrando pedra sobre pedra. As características comprovadamente masculinas estão agora usando absorvente e devorando chocolates.
Esta última conquista feminina realmente impressiona. Num universo sustentado pelas vontades sexuais masculinas, elas deixam de lado o papel de atriz e assumem o controle na direção dos filmes - o que representa satisfazer às exigências de um público predominantemente masculino (pelo menos, em sua maioria); e tem, ainda, planos audaciosos para um novo mercado: esperam lançar, exclusivamente, filmes que tenham a proposta de atender às necessidades do imaginário feminino. A foto acima é da cineasta sueca Erika Lust, formada em Ciências Políticas e Feminismo, em Lund, na Suécia (pesquisa feita no seu site), que tem suas próprias idéias para construir esse novo mercado. Ela pretende investir em estórias românticas e apostar na relação entre os atores - além, é claro, de exibir mulheres tendo orgasmo (sem fingimento!).
É surpreendente constatar esse momento, ainda que isso aconteça com certo assombro quanto aos fatos. Apesar de toda brincadeira, é um enorme avanço ver as mulheres exibindo sua sexualidade, de forma marcante e em um contexto que até pouco tempo era tabu em seu próprio universo. O meu espanto é reservado apenas aos homens, que pouco tem explorado a oportunidade de entrar em contato com esse mundo e conhecer a intimidade feminina. O que se pode conhecer conversando com uma mulher - o que as encantam, as divertem e as excitam - é infinitamente maior do que (pelo menos) há 10 anos atrás. Ainda sim, os homens continuam previsíveis e as mulheres têm demonstrado pouco interesse por sua companhia. Eu vou procurar assistir esses filmes e (claro!) comentar aqui no blog. Agora, os homens têm um motivo válido para convencer às mulheres a assistirem um filme pornô!

terça-feira, 28 de abril de 2009



A crença das pessoas sobre o inexplicável é uma característica surpreendente e também estranha. É incrível como toma a forma de uma convicção capaz de sobrepor-se mesmo diante da explícita contradição. E quando crenças opostas se encontram formando uma única crença central, fica ainda mais esquisito. Tomemos como exemplo: Deus: um ser (ou Força) supremo do universo; Sorte/Azar: um acontecimento qualquer que ocorre contrário à(s) sua(s) outra(s) probabilidade(s) ou vontade individual; Destino: o caminho pré-determinado na vida de todo homem. As pessoas utilizam todos estes conceitos reunidos, como se fizessem parte de sua única crença, ainda que eles se excluam por ordem de incongruência. Num mesmo dia, e em diferentes situações. Vamos observar: se você afirma que teve sorte (ou azar) em determinada ocasião, você considera a conclusão do evento como lhe sendo desconhecida e improvável. Isso é, em teoria, contrariar qualquer crença em Deus que você assumir (vou considerar o Deus católico para exemplo. Mas, qualquer um deles é admissível). Por que Deus é ONISCIENTE. Portanto, nada acontece sem a sua vontade, sem o seu conhecimento. Então, por que chamar de sorte/azar um incidente ocorrido ao acaso se o que lhe aconteceu ocorreu por vontade Dele? Bem, também não pode ser chamado de Destino. Por que, você não tem sorte ou azar quando o que vai lhe acontecer está previamente definido. Tinha que acontecer. Apenas você não sabia. Mesmo um "destino que vai sendo escrito" está, na verdade, considerando que podem ocorrer diferentes possibilidade para um mesmo evento. Uma característica que é típica de "sorte ou azar". Se são sinônimos não convém ficar chamando uma coisa por outra. É preciso apenas um único conceito. Logo, um deles está sendo naturalmente excluído, o que retoma a questão inicial de se orientar por uma única crença. Vamos à próxima sentença; Você pode chamar de destino os acontecimentos que ocorrem na sua vida. Mas isso é também renegar sua crença em Deus. As pessoas receberam Dele o dom do livre arbítrio. Então, são livres para tomar suas decisões - boas ou ruins. No Destino o que acontece com você não é fruto, naquele momento, de sua decisão. É a ocorrência daquilo que deveria lhe acontecer naquele momento ainda que pareça uma decisão sua. Isso contrária o conceito de dom do livre arbítrio e, por consequência, a própria crença em Deus. Como o de destino e sorte/azar foi anteriormente explicado, nada restaria acrescentar nessa popular contradição humana. Porém, o mais estranho é que a própria crença em Deus é contraditória. Como, diabos (não resisti ao trocadilho!), Deus pode saber de tudo e presentear as pessoas com o livre arbítrio? Como ele pode saber daquilo que eu ainda não escolhi fazer? Os ensinamentos sobre Deus são repletos dessas contradições que os religiosos se esquivam em concluir. Particularmente, a fé em um Deus, e em qualquer circunstância, é uma coisa penosa. Mesmo que você reconstrua um Deus seu, próprio, ainda é estranho. Por que você não fez sua descoberta sobre Deus em uma experiência sagrada entre você e o Divino. Você acreditou em Deus por que assim lhe foi ensinado! Então, quando tudo que você sabe sobre a existência de Deus vem de uma estória completamente contraditória - e Deus sempre permanece oculto para aumentar as suspeitas -, reconstruir um Deus próprio nada mais é do que fabricar sua própria versão mal contada da mesma estória. Ainda que eu tenha em boa conta as pessoas que se orientam por qualquer tipo de crença, tenho a certeza de que elas se afastam em tentar entender esse assunto. Morando em "São Salvador, neguinho!", é ainda mais impressionante. Elas adotam o culto ao Catolicismo, ao Candomblé e ao Espiritismo em uma única semana! Dia de ir no centro, dia de fazer os trabalhos, dia de ir no Bonfim... Eu nunca li sobre nenhum exú sendo citado no livro de Alan Kardek, nem li na bíblia sobre Deus encontrar com Oxalá na cúpula dos "deuses mais economicamente desenvolvidos no mundo", nem nada parecido... E ainda sim mantenho minha simpatia pelas pessoas. Por que mesmo sendo contraditório, equívoco ou hipócrita, ainda é algo totalmente humano! Não somos deuses, nem animais... mas o resultado desse meio termo. Não seremos melhores do que isso. E essa consciência me permite uma enorme diversão com as pessoas, convivendo e azucrinando suas esquisitices, sem o esforço de convencê-las de nada, em absoluto. Pode ser isso, ou pode ser que, como disse o dr. Dráuzio Varela, eu seja "um completo imoral". E aí, na verdade eu não me importe. Ainda sim considero, para mim, de bom tamanho... Vou considerar problema somente quando virar o criminoso!